Terça-feira, 30 de Novembro de 2010

Jonathan Livingston Seagull

Hoje dei por mim a ouvir a música "Be" do Neil Diamond que, orquestra a rebelião de uma gaivota chamada Jonathan Livingston Seagull, do livro com homónimo epíteto, escrito por Richard Bach. Vi o filme, como advento de uma corrente esotérica e demanda de descoberta de então; era na época adolescente, revoltado com o desajuste que a minha personalidade cobrava do mundo, logrando que na dissemelhança, no comportamento endémico e implosão emocional poderia erigir um universo meu. Hoje sei que estou certo: é possível garimpar na selha constelar de escolhas, uma que nos aprouva que nos sirva, mas sendo desta servos. Poderá parecer que escarneço a individualidade que arrecadei, mas o que acontece é que como em tudo, a concentração e exacerbação em desmesura conduz à cristalização e à infusão de um objecto tornado fetiche. Vivo efectivamente à margem, como todos vivemos, de uma normalidade latente, mas não estou convicto dessa anormalidade ou atipicidade feliz, porque não creio no que sou, não sou todo eu pensamento desde a asa até ao vôo, como o livro propõe. Houve, algures no meu crescimento, uma estagnação, um receio, um assombro não traduzido em evolução e hoje temo qualquer manifestação do meu espírito. Vivo por isso à margem dos outros e de mim próprio, com um pé no arquipélago e outro na ilha que impeço de sucumbir.

sinto-me: Exaurido
música: Be, Neil Diamond
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Sábado, 10 de Outubro de 2009

Wasabi, a coisa verde que sobe directamente ao nariz

 

Dedico as próximas elucubrações a um inesquecível episódio cujas repercussões tão cedo não saberei mitigar, e que, decorre da minha estreia no subtil universo da cozinha nipónica.

 

O caso é grave meus amigos, e não fosse eu um defensor acérrimo de alguns tresvarios e ulterioridades no que concerne a gastronomia (diga-se que sou pseudo-sazonalmente-vegeteriano), e erigia aqui uma grave contenda contra um dos preparados mais explosivos e devastadores que já ingeri: Wasabi - como vim a descobrir, não por grande solicitude ou bonomia da delicada empregada japonesa que, atalhou a minha insolência de lhe perguntar o que tinha comido, com um gutural: "wasabê-aê", que, na altura sublimei mas agora após uma pesquisa vim a confirmar a sua verosimilhança.

 

Antes de mais, e como incauto provador completamente descomplexado e estreante, demonstrarei aqui o meu prisma desta experiência deveras esfusiante, descrevendo-a de forma progressiva:

 

Fui com uma amiga minha, chamada Ana, a um restaurante Japonês. Sentámo-nos e, com a parcialidade própria de um indivíduo plenamente imbuído na pluridade e multiculturalidade deste globo, pedi, como convinha, uma coca-cola (produto cuja etimologia remonta aos anais da história oriental, claro); entretano, enquanto debatíamos a inefável proeza de manejar porções de alimento com dois filetes de madeira filamentosa (para não destoar, diga-se, já que nada insinuava que o purgatório pudesse transformar-se ocidentalmente em práticas comuns de garfo e faca), chegou o primeiro (e único, pois viemos a descobrir que peixe cru enche mais do que parece) prato: (...um nome japonês inexprimível...); a comida era óptima, e, posso dizer em rigor que, tal só corroborou o meu fascínio pela delicadeza e meticulosidade orientais; contudo, (e aqui entra o temeroso wasabi), desde o começo nos foi colocada na mesa um pequeno wok de madeira, cujos elementos dispostos eram respectivamente, uma substância (que mais tarde vim a atribuír o epíteto lato de "coisa") verde e umas fatias róseas desmaiadas de um peixe, providencialmente cru.

 

Ora, um avaliador atento, que como deverão já ter induzido não é meu apanágio, apreciaria duas coisas que a mim nada disseram: por um lado, a escassa quantidade de ambos os preparados, que, estabelecendo um paralelo gatronómico poderiam pressupor tratar-se de algo extremamente concentrado e pungente, como disso são exemplo algumas bebidas espirituosas, condimentos, molhos, especiarias, etc; e, ainda, o arreigado e eclodente humor e odor por estes libertado, que, para alguém minimamente versado na arte de deglutir, deveria estar desperto para a vivacidade e potência de tais alimentos.

 

Ignorando ambas as interpretações instintivas e somáticas, eu, temerariamente, traguei, literalmente, a chamada coisa verde, mesmo depois do ensejo preliminar que já me havia alertado para a equacionável intensidade esperada.

 

Bom, meus amigos, é neste trecho deste périplo que as palavras carecem de destreza e expressividade suficiente para traduzir com propriedade aquilo que se passou. Mas, como provador, posso definir a experiência de sorver wasabi como se fosse um punhado de tremoços muito ortodoxos, como um entrecruzar de expiações físicas e psicológicas, que faz convergir a forte ardência e fogosidade de um espamo estomacal, com, o marasmo apoteótico e catártico da pimenta misturada com rabanete quando nos trepa, diriamos, para o cérebro tal é força.

 

Tudo isto é arrebatador, sem dúvida, mas, concedendo a um adágio popular, depois de recuperado descobri para meu pesar que, "a procissão ainda ia no adro"; a coisa verde é dura de digerir meus caros, e aconselho aos mais desafortunados que não possuam uma mecânica peristáltica capaz de se afastarem deste wasabi.

 

O meu objectivo, depois de refeito, é, sem dúvida, reiterar esta experiência fulgurante da comida japonesa, exlcluíndo claro, a maldita coisa verde, pelo que, tenciono muito em breve, convidar-vos, quem quer sejam, se o forem, a assumirem a posição de comensais e comparsas numa refeição nipónica em minha casa, inteiramente confeccionada por mim.

 

Um ponto prévio e irrisório: quem não gostar e no final me defraudar, levará obviamente com wasabi na feijoada que servirei no fim àqueles que considerarem, e são muitos, que a comida oriental não puxa carroça.

 

 

Wasabi (山葵) é um tempero em pasta utilizado na culinária japonesa, feito da planta Wasabia japonica sendo cultivado nos frescos planaltos de Amagi, na península de Izu, Shizuoka, Hotaka e Nagano. A Wasabia japonica pertence à família das Brassicaceae, e é conhecida também como rabanete japonês ou wasábia.

O rabanete japonês apresenta alguma semelhança com a raiz-forte (Armoracia rusticana), mas tem um sabor e aroma mais delicado.

Wasabi fresco

O rabanete japonês selvagem parece ter sido utilizado como planta medicinal e antídoto para envenenamentos por ingestão de alimentos, daí ser servido com peixe cru desde a era Nara (710-793). O termo wasabi aparece no Honzo-wamyo, 918 o mais velho dicionário botânico compilado na era Heian (794-1185), referenciando 1025 espécies de plantas japonesas.

A primeira utilização do rabanete japonês no sushi, em particular no nigiri-zushi foi inventada no período Edo tendo sido um verdadeiro sucesso, sendo generalizado a outros pratos como as massas e arroz "ochazuke". Actualmente o rabanete japonês é usado para acompanhar sushi e sashimi.

O rabanete japonês obtido da raiz fresca é chamado de "hon-wasabi" (verdadeiro rabanete japonês) diferenciando-se das outras formas de apresentação. Uma vez esfarelado ou ralado (geralmente utilizando uma madeira com uma lixa bastante grossa) o rabanete japonês apresenta um aroma e paladar que não é comparável ao dos produtos comercializados, os quais se apresentam no mercado sob a forma de pasta ou em pó (kona-wasabi), sendo preparados do pó da raiz seca já produzida na Europa Armoracia rusticana G. M. Sch. denominada por "seyo'o-wasabi"" que é bastante diferente do genuíno. Estes produtos já contêm mostarda, corantes e aditivos para se aproximar do verdadeiro wasabi.

Tubo de wasabi

Tais produtos desempenham no entanto, um importantíssimo papel, devido à raridade e dificuldade em obter o verdadeiro rabanete japonês, digamos que permitiram a massificação do consumo do sushi e sashimi no Ocidente pelo menos com um paladar e aroma aproximado ao dos pratos genuínos, o que de outra forma seria inviável.

 

in Wikipédia Online

 

 

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Segunda-feira, 7 de Janeiro de 2008

Fedra

É-me incontrolável; perdão, desculpo-me injustificadamente, o paliativo do dever, da ordem, da imperativa providência que rege e mandata, por vezes baixa a guarda; nesses raros instantes, em que as incursões do espírito humano me acometem, envergo o inato fôlego da vontade de expressão – desta feita, catalizada pela comoção presente.

 

Que escrever no emaranhado de palavras? Corro o previsível risco de me perder, como já é habitual nas minhas exegeses redactoras e delatoras do meu embaraço objectivo. Mas tinha de escrever, é emergente, é premente, incorro em todas a insensatezes que me recordo, porém tinha, a lágrima exige-mo. Bom, não me perdendo na dimensão das palavras, o que procuro registar desta feita, é comparável ao que o impressionista procura na azáfama da luz descombinada ou o que Büchner tão deliciosamente relata; o seu desejo de ser tornar por instantes medusa e apreender, ou por outra, perpetuar em pedra determinado instante irrepetível e irreconciliável com a ligeireza do tempo. Pois também eu, me outorgo esta vontade e desejo de me fundir com o presente momento, em que escrevo concessões da respiração do interior.

 

A reincidente impugnação de responsabilidade à incompetência das palavras, na verdade, relegando a minha falta destreza ao palavreado. Enfim, desisto. Apenas eu compreendo a tragédia que é estar vivo e ter olhos; pois eles vêem melhor do que alguma vez serei capaz; eles não ponderam, antes de escreverem em linhas obtusas o que observam, gravam retinalmente, o que acontece. Perdi-me, subscrevo-me à paisagem que parte também diletantemente, infundo-me nela, insucedidamente…Perdão.

música: Wish You Were Here-Pink Floyd
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Sábado, 30 de Junho de 2007

Carta [In]Remetente

Não sei como te dizer, avô. Não sei como te dizer que a personagem que encerras, existe em mim, e que o “mim”, é inefavelmente, pretensioso, pois “mim”, “mim” é a multidão onde me ergui, “mim” sou eu, um eu colectivo, um eu uníssono. E mesmo que um hábito, uma prática ou memória presente não decorre directamente do teu legado, ele, por si, inteiro, se faz atribuir autor, à rubrica, ao cunho da tua passagem, que trauteou os meus passos. O meu gosto pelo desconstrutivismo do objecto vida, dos detalhes que a obra da imaginação extasia em fenómenos vivos, em animais de cetim e cornucópias caleidoscópicas de estrume vivente. Não sei como te dizer que me pertences, porque assumi-lo, seria, no rigor impreciso das palavras, esmorecê-lo. A prática da escrita é o pleonasmo redundante de si mesma, pode ser plural, dolorosa, dolente, indómita e torrencial, mas, balbuciante, imperfeita. Não te sei conjugar, pretérito avô. Possa a minha vida, o meu silêncio ensopado de palavras surdas, que te desdigo, ser a mesquita, o mérito e o voto da tua beleza.

 

Não te sei dizer a falta que me farás. Não sei pensar o que não me é apresentado. Sei antever a agonia, mas não sei se suportarei. És tão igual a mim. Ou pelo menos penso que o serás. Enclausuraste os ditos que se estilhaçam nas rochas imberbes da incompreensão, em ti mesmo, como eu. Já desisti de gatinhar no chavão da estranheza, tão pouco é isso mágoa, apenas pensamos demais, ou de menos, com a carne. Apenas idealizamos demais e concretizamos de menos. O mundo é dos empreendedores, dos audazes, não ardilosos comiserados como eu. Que darei eu ao mundo? A minha impotência? Não acho nada errado, tão pouco consigo combater as placas oscilatórias da minha precavidade, em prole dos meus actos. Queria gritar com clavículas e alvéolos, defronte de todo o mundo Helénico: Eu sei-vos! Eu sei-te, mulher dos gestos empertigados, sei que a mecânica da tua indulgência não te tingiu o receio apavorado do teu seio tremeluzente! Abre-te! És de facto assim? Não, um eu sem isto que digo! E de que me adianta sabê-los?

 

Tudo o que eles possam assertar sobre mim, é incolumemente real. Tão mais real por impensado e remexido e pisado e fermentado. Pensam como fruta colhida ou pedra. Mas nunca metamorfoseada. Nunca metafisicada. E porque mostraria eu este texto a alguém? Só quero esperar dele repulsa, náusea e congestão. Nunca brio, mérito ou menção. Mencionem-me como a epígrafe da convalescença e viverei em patologia com o furor da minha existência. Mas eu preciso disso. Dor real. Ousar destrinçar e dilacerar a metafísica. É Nauseabunda, é cocote com véus de cortina carcomida pelos trajes do medíocre. Matem-na! Arreganhem-na!

 

E que sobranceria posso eu ostentar por este feito!? Nenhuma! Damos demasiada simbologia ao que fazemos. Apenas vomitei e por perversão conservei a disposição desse frémito convulso num pedaço consignado de podridão fútil. Este texto vale um pouco menos do que merda. A merda fertilizada. E isto já é roubar louvores ao húmus, a Minerva e à Ecologia. Isto é acético, anestésico, é merda química, é meta-merda!

 

Guilherme Gomes, 10 Junho, 2007

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Sexta-feira, 1 de Junho de 2007

Posfácio



Sem peias. Sem atavios. Sem sucalcos que me entremedeiem o caminho da escrita.

 

Apenas eu. Eu e os meus dedos sequestradores. Apenas eu e a minha falta de génio intalentoso.

Um dia, um dia que começou descalço e lentamente se embrenhou em pé verde de organdi.
Espectativa ante espectativa o dia soçobrou-se em volúpias doces e meigas no semblante do teu perfilado dengoso.

O inesperado, o som da persiana que me induziu no desastre de um dia que floresceu belo.

Os veios do espelho da intermitente cornucópia de imagens vincaram-se de brechas fractadas concisamente. Debrucei-me no balancé dos teus redemoinhos negros de basilar bálsamo de mogno. Espiralei-me neles, como um escorregar infantil e sossegado. Um mundo no teu corpo que me pertence. Um mundo no teu universo que me torna demiurgo do meu.

Amo-te,não sei dizer mais do que um: adoro-te, a ti e a toda a tua inesperada surpresa com que me presenteias.

Amo-te

Muito

Amo-te

 

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