Quarta-feira, 17 de Outubro de 2007

Histoire d’Eaux | Bertolucci

reflexão | técnicas oficinais | guilherme gomes | esad

 

 

6 Parte | The Directors

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 Histoire d’Eaux  | Bertolucci

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“Numa história, o tempo não se prende, acomoda-se.”

 

“Qualquer história se finaliza num destes dois desfechos: a inevitabilidade da morte ou a continuidade da vida.”

 

CALVINO, Ítalo, Novelista Italiano

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O Tempo como metonímia, parábola e elipse, acontece em diversas plataformas e domínios; desviando-nos da índole psicológica destes três fenómenos, concentremo-nos apenas, nestas três recorrências acontecimentais, como instrumentos próprios da narrativa, seja ela literária, cinematográfica ou histórica; tudo se infirma nas histórias; as histórias não existem senão no contador, elas acontecem ininterruptamente sem interregno que se perceba, na existência; o que torna uma história, uma história, é a forma como é contada. Destaquemos, na exposição narrada da história, a parábola e a elipse. Entendo por elipse, compreendendo a derivação conceptual da análoga elipse matemática, o processo de omissão, intencional ou não, de determinados fragmentos de tempo, que não deixam de acontecer, mas que por escolha ou visão do contador, se omitem mais ou menos pronunciadamente. Se pensarmos num fenómeno, que se espraia no tempo, compreendemos que o tempo, embora férreo e contínuo num filamento conciso, se dilata, expande e contrai, conforme a perspectiva com que o vivemos ou observamos; e no entanto ele acontece, como ubíquo fenómeno imparável, como uma morte que vive nos relógios. Se pensarmos num Agora, que será um Depois, não nos esqueçamos do Entretanto, do sono embalado que acontece no velar das horas, das quais vivemos apenas uma parcela de um todo. (daí a metonímia) Ora, no decorrer elíptico de uma narrativa, quando de facto se trata de uma elipse, assumimos que, na ausência de circunstância de um determinado instante, não existe um eclipsar de tempo, mas sim, um dilatar ou estreitar de tempo.

 

Dois exemplos marcantes do fenómeno elíptico são: A Teoria da Relatividade e (quem sabe uma adaptação ou intrusão desta epistemologia na criação do filme) o filme “Primer”, de Shane Carruth; no primeiro, alinhavamos no domínio hipotético, um cenário da acção desigual do tempo; dois objectos de estudo, submetidos à acção erosiva do Tempo, existem num decorrer cronológico idêntico, mas, na verdade diferente; enquanto que um se desloca a uma velocidade temporal prosaica, um outro, durante o mesmo espaço de tempo, desloca-se a uma velocidade superior, enfrentando assim o tempo, dilatando-o; é precismente este o mote do filme “Primer” e de toda a vinheta própria da elipse como recurso narrativo.

 

Sinopse | The Directors

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 Histoire d’Eaux  | Bertolucci

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Na história, é-nos  apresentada uma situação temporal elementarmente definida, encarnada por uma personagem isenta de apresentação, mas que, aparenta possuir um objectivo efectivo de acção, retratado num acto de fuga em busca de uma liberdade desejada; todavia, a directriz demarcada da existência da personagem, intercala-se com um imprevisto (temporal) personificado por um mestre idílico, algo difuso, mas concreto na intenção. É este o elo-chave e por conseguinte o mote e o móbil para toda a história; neste preciso momento, em que um indefinido presságio desvia a personagem de uma rota consignada a princípio, apodera-se do tempo de acontecimento, um outro acontecimento, que desta feita invalida o primeiro (invalidará? – se acreditarmos no eterno retorno de Nietzsche, não)  e faz desembocar a personagem num rumo totalmente novo. É este o diacrítico da elipse, que um última instância se concatena com o fenómeno da parábola. Recorrendo ao uso de montagens meticulosas, tirando partido de quebras súbitas de som e intercalação de planos, Bertolucci coloca-nos no encalço de uma jornada metafórica pelo poder dos acontecimentos, que medeiam uma existência de um “isto” ou “aquilo”, de um “aqui” determinado que desaguará num “agora”. (Teoria do Caos- Jacques Hadamard, 1898 – efeito borboleta) Mas, no dealbar pelo inventário de peripécias que encarreiram noutras, bertolucci, polvilha a narrativa de alguns elementos denunciadores da parábola final; um deles é a rapariga, que parece representar a elipse retornante do tempo; como se, embora vivamos no limbo fugaz entre o nada e tudo, a pontear esse nada, ergue-se uma ligação de acontecimentos que retornam a um mesmo ponto; (movimento heliocêntrico) outro deles, será porventura o elemento água, que além de enfatizar o retorno final, apoia a construção elíptica da narração, surgindo como um elo de conjugação dos acontecimentos: A sede do mestre (a sede do tempo?), a personagem da mulher que transporta a água, a água do chuveiro, as águas da placenta, a água da chuva e de novo a água da sede do mestre.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Reflexão levada a cabo por Guilherme Gomes, ESAD, 2007

 

 

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Segunda-feira, 15 de Outubro de 2007

Teoria da Concretização

reflexão | técnicas oficinais | guilherme gomes | esad

 

 

5 Parte | Teoria da Concretização

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Theory of Achievement | Hal Hartley

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"Quem se mata corre atrás de uma imagem que forjou de si próprio; as pessoas matam-se sempre para existir.”

 

MALRAUX, André

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Diz-se de concreto: o objecto tal como se apresenta na sua realidade existencial, na sua individualidade.

Sem resvalarmos no pastiche da semântica, com parafernálias de âmbitos filológicos e texturas de simbologia, situemo-nos por ora neste pressuposto: ser concreto, é o estado comparência e presença numa determinada realidade, sem que com isso, se suprimam as propriedades e disjunturas próprias do fenómeno existente. Aplicamos a substância da concretitude ou da compleitude ao substrato completo e acabado de um signo, de um produto íntegro e concluído.

 

É exactamente este o busílis do ensaio. Principiamos com a epígrafe definida de conseguimento, de alcance e aquisição; concretizar será pois tudo isto; consumar um objectivo; finalizar com a devida intenção um pressuposto em algo “concreto” (passando a redundância); são precisamente estas premissas que se dissipam e invertem no decorrer da narrativa: partimos com a preposição de uma jornada pelo universo da Concretização, e, deparamo-nos com um microcosmos totalmente antagónico a esta intenção. Na verdade, creio tratar-se de uma engenhosa ironia/sátira, a escolha da Concretização como epíteto à história que se desenrola; pois, ascender ou aferir um lugar numa existência, onde caibam as individualidades únicas de cada indivíduo, é uma demanda inacabada e talvez não conseguida no dealbar enevoado das personagens. Acredito que, Concretização se apresente revestida da mesma conotação que poderíamos atribuir a um termo como “Sonho”, “Idílio” ou qualquer propósito-eleito da história da literatura ou poesia. Enveredamos pois, no tumultuoso caminho da Existência Humana, em todas as fissuras e hiatos que a compõem e, a todo o soluto incomponível que teima em se apresentar indecifrável; o restante, o sobrante irresoluto que assombra o intelecto humano, e que, em diferentes sentidos, se converteu em divindades, crenças e devoções – é este reduto último que se mantém por desmistificar e, concretizar.

 

Ora, encontramo-nos pois num ambiente, em jeito de anacronismo, reavido dos tempos primeiros da modernidade nova iorquina, mais propriamente na periferia urbana de Brooklyn. Esta analogia temporal com os efervescentes e prolíferos passos da modernité française no dealbar do século XX, retrata e reveste de significado e semelhança histórica, os ímpetos modernos e revolucionários do estrato social de artistas, pensadores e filósofos que procuravam o seu domicílio na cultura nova iorquina. Por outro lado, existe também uma vincada têmpera sarcástica e mordaz na representação das personagens; quase como caricaturas da acepção típica da vinheta do artista jovem que, procura desposar a sua Jerusalém na torrente eflúvia de pensamentos, mobilizações e mentalidades, mas no fundo, deriva na corrente anestésica da auto-marginalização, consumação e comodismo intelectual próprios de uma conjuntura social média. (arriscando dizer: pseudo-intelectual)

 

A trama apresenta-nos a situação de um grupo de jovens intelectuais, na demanda caricatural das grandes questões do tempo, como: Estética, Romance, Literatura…

 

Cria-se um enredo satírico e burlesco, em torno de situações extravagantes, insólitas e inusitadas, mas que, no contexto da narrativa se ajustam fielmente no que parece ser o seu mundo próprio. No fundo poderíamos considerar a curta-metragem como uma alegoria ou uma representação abstracta de um universo alternativo, em que jovens, agastados pelos dramas do início de vida, carreira, e assunções de existência, se interlaçam numa espiral de irrealidade comum, suportada por máximas, aforismas ou epígrafes da literatura e filosofia, nas quais julgam (e uso “julgam” com a intenção de imputar o véu ilusório com que o fazem) fundamentar a sua existência. Mas mais do que isto, encaro nesta babel estruturada no filme, uma clara intenção de “troçar” com a imagem cliché (mas verdadeira) do/s artista/s Eleito da Dor, do Sofrimento como sedativo último para o drama de Estar e Ser; em que a fuga da realidade, não existe de facto; ninguém é autista por decreto ou escolha ciosa, quando se extravasa a realidade, quando se é poeta ou artista, não se é de todo:

 

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"Sonhar não é ter asas, é já voar.”

 

ANÓNIMO

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Reflexão levada a cabo por Guilherme Gomes, ESAD, 2007

 

sinto-me: Nostálgico
música: Hide in your Shell-Supertramp
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Domingo, 27 de Maio de 2007

Acaso

Por um lado, compreender a vida, é aceitá-la como um estilhaço, perceber que pisamos um chão quebrado de angústias que nos pertencem tanto como o sangue alheio que tece o mosaico do tempo. O Tempo, aquela morte que vive nos relógios, aquela promessa indigna, conspícua e emergente que é um presságio de morte. E exigimo-nos, demandamo-nos a fortaleza do nosso ímpeto, contra o rigor das horas, a injustiça da vida e o desassossego das impressibilidades. Mas, por muito que me ditem que, aceitar o tédio como o aborrecimento natural de quem matuta na vida, por muito que analogizem a náusea da solidão humana com o desbotado de uma botas gastas, não posso deixar de odiar a melancolia. A comiseração. Não sei em que crer, se na inverosimilhança da existência, se na fuga às estradas largas, se na inevitabilidade – no fundo não temo a morte nem a perda de vontade. Vontade tê-la-ei sempre, nem que seja vontade de não ter vontade. Nem que seja o decreto de me destruir lentamente na minha teia de ópio venenoso.
 
Como disse Nietzsche: “incapacidade da vontade para se satisfazer sem adversário e resistência”.

 

Hoje apercebi-me de uma coisa: Há um pronuncio nos presságios de um dia; pequenas mensagens por decifrar que pairam na caspa dos planetas, deixadas como o almanaque da possibilidade nos parapeitos; tudo depende do som da persiana que corre no início do dia; tudo depende dessa insignificante mensagem acolhida pelo meu ouvido sonolento – a vida faz-se disto: insignificância significante.

sinto-me: Poético
música: Ne me quitte pas-Jacques Brel
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