Quarta-feira, 2 de Janeiro de 2008

Despontar

Despontar
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Demasiadamente depressa partiste. Um adeus mudo conservaste. Lamentavelmente, a palavra é agora obsoleta, irrisória e estoicamente indesejável. A ordem regiamente implacável das coisas afasta-te de nós e enevoa-te, envolto num véu de reminiscência. Uma vez mais se repete este processo penoso e exasperante que é ver alguém partir. A precocidade alia-se ao peso atroz da perda, baloiçando levemente na impotência que se espreguiça no rosto do espírito magoado. Acomete-se à progenitura, a dor abreviada e pungente; sub-repticiamente, uma cadente melodia vaga se impõe no passejamento; um misto de tacitez e estupefacção pela sátira dos acontecimentos invade a mais frágil ou assaz vontade em viver. Ao legado, o abandono de quem parte é como uma forma que se esfumaça do céu, cientes os parentes da impossibilidade de reencontro ou reavência de tal efígie.

A morte, é um estado dicotómico de surpresa e nostalgia; um estado de revivência; paulatinamente, a fausto custo, a chaga da ausência cicatriza-se e encontra nas singelezas mundividentes a escatologia de alma conveniente; mas a redenção faz-se esperar, em boa verdade, nunca se consuma de todo; diz-se que o vazio se preenche com amor, mas, num coração repleto de vacuísmo nada mais cabe do que nada; apenas na compleitude plena de um espírito sobejo, há espaço para mais amor.

O luto, além de escolástico e ritual, é também uma condição pós-óbito, uma idiossincrasia pós-fúnebre, independente e singular que poderá divergir entre relutância e resiliência ou aceitação aparente e magoada; mas não, o espaço não se coaduna nem se preenche como brechas que o vento fustiga de vagidos; com o tempo, aprendemos a sarar os desenganos e a preparar com o conhecimento de causa, os unguentos caseiros do espírito; com o tempo, ensinamo-nos a coexistir tolerantemente com a marca, com o estigma; ignorá-lo é sofrer duplamente.

Conservar o que o viajante fez de bom, teve de bom ou era de bom? Nenhum dos três. Conservar por conseguinte, assevero, o que em nós o viajante era de bom, preterindo e olvidando a hipótese de ser ou não; algo nele era irrepetível e próprio; algo nele e com ele juntamente, vivemos ou acreditamos ter vivido: é pois essa réstia que conservo felizmente; o pó nas asas da borboleta que parte e que restituo à composição do cosmos (a que pertenço).

Até sempre Pedro*



Guilherme 2 de Janeiro de 2008
sinto-me: Desolado
música: Bolero-Ravel
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publicado por sofisma às 21:55
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