Sexta-feira, 30 de Novembro de 2007

Bioprodutos Sociais

reflexão | semiótica | guilherme gomes | esad

 

 

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Como epíteto, apraz-me recordar um curto excerto do “Livro Do Desassossego”, de Fernando Pessoa, que, em certa medida, abrangerá em parte o domínio do monopólio da atenção sobre o qual irei dissertar:

 

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“Vivemos das côdeas a que chamamos bolos, como crianças pobres que brincam a ser felizes.”

 

PESSOA,Fernando, heterónimo Bernardo Soares, in “Livro Do Desassossego”

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Intrínseco ao fenómeno do Design, à constituição colectiva que designamos por sociedade e que tende, numa exponência atroz, a tornar-se cada vez mais consumista, poderíamos acoplar um sem número de causas/efeitos e consequências/repercussões; sejam elas do domínio da sociologia, antropologia, biologia, economia, política, psicologia ou epistemologia.

 

Sociedade de Consumo

 

Antes de mais, a questão que se coloca é: o que é uma sociedade de consumo, e no seguimento férreo deste indagar: o consumismo? E também, o porquê de ambos?

 

Compreender a sociedade de consumo, na vereda desta análise, pressupõe duas asserções prévias: a primeira será pois, entender o consumo, a excessiva procura de mercado ou o consumismo (como se quiser designar), como uma perversão social (na medida em que se trata de um aparelho utilizado pelos produtores que adultera o programa comum de gasto e consumo que seria de supor numa sociedade - trata-se em última instância, de um corrompimento), em segundo tempo, perceber uma sociedade, como uma conjunção de acepções, variações e oscilações disjuntivas de opinião e mente, próprias de um espaço e de um tempo. 

 

 

 

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“Os indivíduos fazem a sociedade que faz os indivíduos.”

 

MORIN,Edgar

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A concepção de “sociedade de consumo”, deve à sua volubilidade, uma certa indefinição e inconcretização; não é, como tal, estanque, nem se consuma, digamos que será um barómetro do semblante e configuração dos tempos; tendo sido sofredora de interpretações e consequências. Nas palavras de Baudelaire: “…o imortal apetite do belo encontrou sempre satisfação.”, ou seja, o pensamento próprio de uma vinheta, de um tempo ou enquadramento histórico, contamina e impregna todas as estruturas físicas e metafísicas desse homem desse tempo. Mas regressando à sociedade de consumo; nunca a poderíamos assistir se, reivindicantes episódios históricos não tivessem ocorrido; se pensarmos no fenómeno/processo de consumir, ele será inconcebível sem que exista uma emissão e uma recepção de um produto (seja de que âmbito for). Sitiando o acontecimento do surgimento de sociedade de consumo, reavivando a normativa de pervertimento ou adulteramento de um processo de gasto directo num contexto pessoal, poderíamos convencionar que a conversão de: psicologia de adquirimento de um bem – como suposta aquisição provida de longevidade – na psicologia de adquirimento contínuo de um bem que não pressupõe um gasto por inteiro, incorre na corrosão do processo.

 

A amplificação abrangente da demografia e a distribuição de produtos potenciada pela Revolução Industrial e seus subsequentes (taylorismo, fordismo, estandardização, produção em massa, linhas de montagem, estratificação do trabalho,etc) incrementaram uma sociedade alicerçada nas grandes corporações e distribuição maciça da riqueza.

 

Persuasão Ilusória/Fight Club/A Medida Padrão da Civilização

 

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GODARD,Jean-Luc

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Qual será o verdadeiro propósito do Design? Qual o seu diâmetro de actuação?

Partindo dos pressupostos marxistas ou do socialismo engeliano, estabeleceríamos no design, enquanto prática e aparelho sociais, uma vincada vertente comunitária em prol das massas. O design, como o financiamento político, convergirá na concernação governativa de uma vontade plural, (público-receptor) enquanto fornecedor de uma resposta a um índice mais ou menos definido de problemas (produtor-emissor). Mas será isso que acontece? Ou viveremos apenas no entretenimento de uma entropia de perspectiva ubíqua e unânime chamada: convenção social?

 

Psicologia Pavloviana/Freudiana do Consumo

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“The massmedia serve as system for communicating messages and symbols to the general populace. Is their function to amuse, entertain and inform, and to inculcate individuals with values, beliefs, and codes of behaviour that will integrate them into the institutional structures of larger society.”

 

ADORNO,Theodoro

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Permitindo-me a um breve aparte remetente ao domínio da psicologia, epistemologia e neurociência comportamental, creio que, de certo modo os perigos de contaminação do processo cognitivo, poderão ser mais evidentes do que se faz acreditar. António Damásio, fala do processo de abstracção mental, enquanto mente aglomeradora de informações armazenadas e accionadas por estímulos incompletos (não fac-similares, na medida em que não armazenamos imagens ou sons no seu reduto ou substrato tocável – e por isso se definem como disposicionais) como acto imprescindível de um objecto; ou seja, mesmo no domínio da alegoria, da abstracção lírica, somos forçados a recorrer a imagens para formular um pensamento, sendo que este, será regulado e influenciado pelos produtos do meio envolvente. Tirando partido desta capacidade, por meio da publicidade, propaganda, manifesto, etecétera, as corporações encetam derradeiros esforços e investimentos na psicologia dos seus produtos. Ipso facto. Neste teatro de espelhos. Neste mundo cosmético sedimentado na artificialidade e mutabilidade constante, criam-se pequenas patologias, isoladas endemias ou pandemias sediadas em micro-universos e microcosmos próprios que, deformando para formar, refractam e edificam o êidos e o ethos do universo comum. E como qualquer dependência, o consumo exacerbado, recorre a capciosos estratagemas e engenhos, por forma a captar ou habituar o consumidor a uma estereotipização de um idílico propósito ou objectivo, domando-o com uma ilusão de escolha, colocando-o no centro do seu universo idiossincrásico; que no fundo, é por ele sustentado. O consumidor paga o próprio sistema que diligencia que se deve consumir, obrigando-o a tal. É no seu cerce (a psicologia do consumo), um jogo de sentidos e motivações, tirando partido de situações “descrupulosamente” pensadas que reflectem a quotidianidade do consumidor, coagindo-o na sua escolha. Um pouco à laia das experimentações de Ivan Pavlov no condicionamento dos reflexos comportamentais ou do estudo do subconsciente freudiano.

 

Fight Club/ Alienação/ Dessensibilização/ Desumanização Kafkiana

 

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“O pensamento mutilado não é inofensivo: desemboca cedo ou tarde em acções cegas que ignoram o que elas ignoram age e retroage sobre a realidade social, e conduz a acções mutilantes que cortam, talham e retalham fundo no tecido social e no sofrimento humano.”

MORIN,Edgar

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Encetando pela análise do filme “Fight Club”, realizado por David Fincher, partindo da adaptação da obra de Chuck Palahniuk, podemos destacar três dimensões distintas na película; por um lado, há sem dúvida uma reacção vincada a um protótipo-tipo de cidadão comum ou homem-tipo a alcançar, propagandeada e asseverada pelas grandes indústrias mundiais; é também um manifesto anti-consumista, sediado num registo rebelde, eficaz e ousado, que tem por base uma dissecação engenhosa de inteligentes escolhas práticas de produtos enraizados no seio do universo social consumidor; por último, cultivam-se desde o início, determinadas utopias ou intenções alegóricas, como contraponto ou manifesto interventivo, e em certa medida, cauterizante e cáustico, raiando o grotesco, [des]sensibilizando a audiência, com metáforas não muito finalizadas de um suposto fim do mundo, um eterno retorno existencial e uma alienação e universo idiossincrásico próprios de duas personagens (qual Jekyll e Hyde) que no fundo são uma mesma personagem niilista.

 

Alienação na Sociedade

 

A alienação não é mais do que uma patologia, ou corroborando, uma psicopatologia; estudando os diacríticos desta, podemos dissecar como produto de estudo e análise, determinados acontecimentos comportamentais e acções no seio de uma sociedade consumista. Em qualquer simbologia, o acoplamento indexical, ou a criação de significâncias, na semiótica, acontece um processo de substituição, ou, mais correctamente: restituição; assumamos um objecto com o objectivo de o representar, o “objecto” recolocado no lugar do primeiro, irá substitui-lo, reificá-lo e exportar da matriz as suas características. Ora, na alienação passa-se o mesmo, apenas a incidência e o desfoque variam. No fenómeno de alheamento, o homem converte-se em estranho dentro de si próprio, isto é, por conseguinte de indeterminadas motricidades e influências, é-lhe imposta, ou não, a acreditação de um interesse, sonho, desejo ou necessidade. Baudelaire, aborda esta questão ao referir-se à cosmética na mulher moderna; segundo ele, existe uma certa incumbência ou dever no seio da conduta feminina, em decretar-se a si mesma a obrigação de espantar, de parecer mágica; ora, num anacronismo conceptual, é interessante verificarmos a intemporalidade desta perspectiva; com os devidos ajustes e retocações, é possível assistir a uma semelhante cartilha ou doutrina de “bem parecer” ou “ser”, estar” e “agir”, consoante a partitura de uma determinada vinheta ou etiqueta social. A maquilhagem do ‘lifestyle’, o mobiliário em voga, actuam de diferente modo na prática social plural e individual.

 

Dessensibilização

 

Ao tentarmos procurarmo-nos no filme, não chegamos à conclusão, ou pelo no meu caso não cheguei, qual será o nosso reflexo, a nossa posição enquanto possível personagem no espectro da narrativa; é-nos apresentada uma sociedade vigente, aludindo a marcas, códigos sociais e reveladores temporais e culturais que nos permitem encontrarmo-nos nela; mas, enquanto tomada de posse numa facção ou noutra (um pouco maniqueísta, mas podemos ressaltar duas posições – a sociedade e o grupo anti-social) ficamos em dúvida sobre qual a nossa visão, o que me leva a crer que, talvez não haja uma conclusão ou resolução lógica ou possível para este fenómeno humano e social; um suposto eterno retorno nietzschniano é proposto ao longo da fita, por exemplo, recordando-me da metáfora do sabão como medida padrão da civilização, sendo que, esse mesmo sabão era feito das excrescências convencionadas pelos cânones estéticos da elite; existe também quiçá, uma alusão à teoria do “crescimento zero” do político holandês Sicco Mansholt, aquando do projecto de dissolução das empresas bancárias pelas personagens do filme, a fim de instaurar o caos total, relegando a contagem financeira ao seu estágio inicial.

 

Conclusão

 

No fundo, que posição tomar? É inevitável a criação de angústias colectivas, mitos e comercialização de sonhos plurais; assim como é inevitável a ilusão imposta pelo mercado. E embora se coloque uma situação utópica na narrativa do filme “Fight Club”, uma vez que a total abdicação social não me parece ser uma opção viável, colocam-se também interessantes visões e denúncias a respeito da progressiva desumanização a que somos sujeitos e toldamento do pensamento. É claro que existirão sempre iniciativas à margem da economia comum e do âmbito directo da finança global. Empresas e projectos activistas são recorrentes nas sociedades contemporâneas; mas, assim como existia uma certa singularidade marginal nas personagens do “Fight Club”, por ora, existirá também nas iniciativas que sulquem brechas entre o produtor e o consumidor.

 

Em certa medida, recordo-me do livro de Kafka; a “Metamorfose”; em que se expõe, na crueza existencialista de uma analogia cáustica, o teor desumanizado que tende a generalizar-se na humanidade; mas, no lado oposto, acredito que esta, ser+a uma visão céptica e desencantada, quando se têm encetado esforços prodigiosos na construção de um espaço multicultural, livre e fluxal chamado planeta terra.

 

As margens do Tempo, diligenciam condutas e leitos, como qualquer estrada larga, deverá ser quebrada e atalhada; nem vivemos dentro de um escafandro de uma entropia/esquizofrenia/endemia comum, nem voamos na leviandade das horas, pois o apego das histórias e da memória não nos permite.

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“L’imagination et la mémoire sont mês deux seuls moyens de m’evader de mon schaphandre.”

 

BAUBY,Jean-Dominique, in “Le Schaphandre et le Pappilon”,1997

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Reflexão levada a cabo por Guilherme Gomes, ESAD, 2007

 

 

 

 

 

Bibliografia

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BAUBY,Jean-Dominique, “Le Scaphandre et le Pappilon”, Colecção Dois Mundos, 1997

MORIN,Edgar, “As Grandes Questões do Nosso Tempo”, Notícias Editorial, 1981

BAUDELAIRE, Charles, “O Pintor da Vida Moderna”, Passagens, 2006

SALVAT, Biblioteca, “A Sociedade de Consumo”, Salvat Editores, 1979

BUTT, David, http://kaganof.com/kagablog/2007/10/30/fight-club-and-the-culture-industry-alienation-liberation-and-revolution-fantasy/,2007

 

 

 

 

Filmografia

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FINCHER, David, “Fight Club”, Fox 2000 Pictures & Regency Enterprises, 1999


 

 

 

 




 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

publicado por sofisma às 09:25
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