Quinta-feira, 1 de Novembro de 2007

Assassinato de Ícaro

“Este resultado ainda mais me firmou na resolução de não tornar a consultar, de futuro, senão a natureza. Só ela tem tesouros inexauríveis, só ela pode criar os grandes artistas. Muito se pode fizer em favor das regras, como também em louvor das leis da sociedade. Assim o homem que se conduza segundo as regras nunca produzirá um trabalho ridículo ou mau, do mesmo modo, aquele que obedeça às leis e às convenções sociais não será nunca um vizinho insuportável nem um emérito malfeitor. Mas também, diga-se o que se disser, as regras atrofiam o verdadeiro sentimento e a pura expressão da natureza.

      – Exageras – dirás tu.

      – Não, não digo alguma coisa de mais. As regras só cortam os ramos supérfluos, fixando limites razoáveis ou convenientes…no teu modo de ver. Meu caro amigo, queres que te apresente um exemplo? Acontece com elas o mesmo que com o amor. Um rapaz apaixona-se por uma rapariga, junto da qual passa todo o dia, consumindo a vida na contemplação daquela a quem ama e empregando todos os bens, todas as forças, todas as faculdades para lhe provar que é inteiramente dela. Chega um simples burguês, com experiência de vida, e no gozo da consideração pública, e diz a esse jovem:

            –Meu caro senhor, amar é humano, certamente, mas é necessário amar como ama um homem. Divida o tempo, dedique uma parte dele ao trabalho e dê à sua amada somente as horas que lhe sobrarem para o recreio: Calcule bem as suas despesas e os seus bens e, se alguma coisa lhe sobrar, não o proíbo de lhe oferecer algum presente, contanto que não o faça frequentemente; por exemplo: no dia dos anos dela, ou no do seu nome e pouco mais.

            Se esse rapaz seguir o seu conselho, poderá vir a ser um grande homem, e eu próprio não hesitaria em pedir a qualquer príncipe que lhe confiasse uma pasta de ministro. Mas o amor é que desaparecerá nele e, se for artista, nunca mais poderá provar que tem talento.

            Oh! Meus caros amigos! Porque será que o rio do génio transborda tão raras vezes? Porque também tão raras vezes se ergue em ondas impetuosas para lhes abalar as almas timoratas? É porque nas suas duas margens foram instalar-se os homens sensatos e moderados, cujas casinhas, hortas e canteiros de tulipas poderiam ser inundados e, portanto, evitam o perigo opondo diques à torrente e cavando canais para desviarem o curso.

 

 

in “Werther”, GOETHE, J.W, Bárbara Palla e Carmo, Julho 2000

sinto-me: Cansado
música: je n'aime que toi-Chansons d'Amour
publicado por sofisma às 13:29
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