Segunda-feira, 15 de Outubro de 2007

Teoria da Concretização

reflexão | técnicas oficinais | guilherme gomes | esad

 

 

5 Parte | Teoria da Concretização

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Theory of Achievement | Hal Hartley

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"Quem se mata corre atrás de uma imagem que forjou de si próprio; as pessoas matam-se sempre para existir.”

 

MALRAUX, André

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Diz-se de concreto: o objecto tal como se apresenta na sua realidade existencial, na sua individualidade.

Sem resvalarmos no pastiche da semântica, com parafernálias de âmbitos filológicos e texturas de simbologia, situemo-nos por ora neste pressuposto: ser concreto, é o estado comparência e presença numa determinada realidade, sem que com isso, se suprimam as propriedades e disjunturas próprias do fenómeno existente. Aplicamos a substância da concretitude ou da compleitude ao substrato completo e acabado de um signo, de um produto íntegro e concluído.

 

É exactamente este o busílis do ensaio. Principiamos com a epígrafe definida de conseguimento, de alcance e aquisição; concretizar será pois tudo isto; consumar um objectivo; finalizar com a devida intenção um pressuposto em algo “concreto” (passando a redundância); são precisamente estas premissas que se dissipam e invertem no decorrer da narrativa: partimos com a preposição de uma jornada pelo universo da Concretização, e, deparamo-nos com um microcosmos totalmente antagónico a esta intenção. Na verdade, creio tratar-se de uma engenhosa ironia/sátira, a escolha da Concretização como epíteto à história que se desenrola; pois, ascender ou aferir um lugar numa existência, onde caibam as individualidades únicas de cada indivíduo, é uma demanda inacabada e talvez não conseguida no dealbar enevoado das personagens. Acredito que, Concretização se apresente revestida da mesma conotação que poderíamos atribuir a um termo como “Sonho”, “Idílio” ou qualquer propósito-eleito da história da literatura ou poesia. Enveredamos pois, no tumultuoso caminho da Existência Humana, em todas as fissuras e hiatos que a compõem e, a todo o soluto incomponível que teima em se apresentar indecifrável; o restante, o sobrante irresoluto que assombra o intelecto humano, e que, em diferentes sentidos, se converteu em divindades, crenças e devoções – é este reduto último que se mantém por desmistificar e, concretizar.

 

Ora, encontramo-nos pois num ambiente, em jeito de anacronismo, reavido dos tempos primeiros da modernidade nova iorquina, mais propriamente na periferia urbana de Brooklyn. Esta analogia temporal com os efervescentes e prolíferos passos da modernité française no dealbar do século XX, retrata e reveste de significado e semelhança histórica, os ímpetos modernos e revolucionários do estrato social de artistas, pensadores e filósofos que procuravam o seu domicílio na cultura nova iorquina. Por outro lado, existe também uma vincada têmpera sarcástica e mordaz na representação das personagens; quase como caricaturas da acepção típica da vinheta do artista jovem que, procura desposar a sua Jerusalém na torrente eflúvia de pensamentos, mobilizações e mentalidades, mas no fundo, deriva na corrente anestésica da auto-marginalização, consumação e comodismo intelectual próprios de uma conjuntura social média. (arriscando dizer: pseudo-intelectual)

 

A trama apresenta-nos a situação de um grupo de jovens intelectuais, na demanda caricatural das grandes questões do tempo, como: Estética, Romance, Literatura…

 

Cria-se um enredo satírico e burlesco, em torno de situações extravagantes, insólitas e inusitadas, mas que, no contexto da narrativa se ajustam fielmente no que parece ser o seu mundo próprio. No fundo poderíamos considerar a curta-metragem como uma alegoria ou uma representação abstracta de um universo alternativo, em que jovens, agastados pelos dramas do início de vida, carreira, e assunções de existência, se interlaçam numa espiral de irrealidade comum, suportada por máximas, aforismas ou epígrafes da literatura e filosofia, nas quais julgam (e uso “julgam” com a intenção de imputar o véu ilusório com que o fazem) fundamentar a sua existência. Mas mais do que isto, encaro nesta babel estruturada no filme, uma clara intenção de “troçar” com a imagem cliché (mas verdadeira) do/s artista/s Eleito da Dor, do Sofrimento como sedativo último para o drama de Estar e Ser; em que a fuga da realidade, não existe de facto; ninguém é autista por decreto ou escolha ciosa, quando se extravasa a realidade, quando se é poeta ou artista, não se é de todo:

 

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"Sonhar não é ter asas, é já voar.”

 

ANÓNIMO

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Reflexão levada a cabo por Guilherme Gomes, ESAD, 2007

 

sinto-me: Nostálgico
música: Hide in your Shell-Supertramp
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publicado por sofisma às 23:58
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