Terça-feira, 2 de Outubro de 2007

Quem sou eu?

conceito | projecto ii | guilherme gomes | esad

 

 

1 Análise da proposta

 

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Identidade

 

 

do Lat. identitade

s. f.,

qualidade do que é idêntico;

paridade absoluta;

analogia;

conjunto de elementos que permitem saber quem uma pessoa é;

Álg.,

espécie de equação ou igualdade cujos membros são identicamente os mesmos, ou igualdade que se verifica para todos os valores da incógnita.

 

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Eu não sou eu nem sou o outro,

Sou qualquer coisa de intermédio:

           Pilar da ponte de tédio

           Que vai de mim para o Outro.

 

                                                     Lisboa, Fevereiro de 1914, in “Poemas, Mário de Sá-Carneiro”, Biblioteca Independentes, Maio 2007

 

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Viver é ser outro. Nem sentir é possível se hoje se sente como ontem se sentiu: sentir hoje o mesmo que ontem não é sentir -  é lembrar hoje o que se sentiu ontem, ser hoje o cadáver vivo do que ontem foi a vida perdida.

      Apagar tudo do quadro de um dia para o outro, ser novo com cada nova madrugada, numa revirgindade perpétua da emoção – isto, e só isto, vale a pena ser ou ter, para ser ou ter o que imperfeitamente somos.

 

                                                       in “Livro do Desassossego”, PESSOA, Fernando, SOARES, Bernardo, Assírio & Alvim,  Lisboa -  2006

 

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O carácter não é esculpido em mármore, não é algo sólido e inalterável. É algo vivo e mutável, e pode tornar-se doente, como se torna doente o nosso corpo.

                                                       ELIOT, George, Inglaterra, 1819-1890, Escritor

 

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2 Reflexão

 

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Eu. Je. I. Ich. Io. Yo – todas elas, designações válidas do Eu. Todas, sintagmas, que no seu todo compõe algumas das definições culturais da qualidade de: ser. Mas o que é de facto: ser? – Existir? – Propriedade do que giza um espaço efectivo e presenciável num determinado contexto? – Nesse caso, as pedras “seriam” – e serão, de facto?

 

O meu parecer neste vasto domínio da: Física/Metafísica, Existir/Inexistir, Comparência/Incomparência – tem vindo a erigir-se e a definir-se.

 

conceito | projecto ii | guilherme gomes | esad

 

Hamlet, no desaire shakesperiano encenado no terceiro acto, segura, num misto de náusea e indagação, a cabeça descarnada de Yorick's, aquando da célebre questão: “Ser ou não ser, eis a questão”.

 

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A pergunta impõe-se: O que será então imprescindível para que se possa atribuir a um fenómeno a qualidade de “ser? A aptidão para se considerar existente como modo de ser? O status quo da existência adquire-se de que forma?

 

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Parece-me pertinente destacar estas questões, na medida em que, identidade (qualidade do que é idêntico; paridade absoluta; elementos que personificam alguém(…)) se considera o/os atributo/os que definem um “quem”, portanto, “ser único” é possuir uma identidade vincada; será algo como: “Ser” o dissemelhante no semelhante.

 

Então vejamos. Ser, consiste no inventário de requisitos e características que definem determinada natureza legítima como existente, como é-ssência; mas existem diversas estirpes de ser ou estar, de decretar verbalmente o fenómeno de “Eu” ser determinada coisa [e não outra] – e é aqui que se coloca a identidade. A identidade será pois o veículo, ou se quisermos, o convívio entre a disposição de Estar/Ser/Existir e a particularidade desse acontecimento. A identidade é o aspecto sui generis, a idiossincrasia de existir.

 

Mas que formatos e índoles haverá de, existir?

 

E poderei eu existir, sendo único, singular e exclusivo da minha unicidade, e mesmo assim ser idêntico; como se refere na aferição de: Identidade?

 

Mas o mote da questão não está completo. Pensemos. Se eu existo; respiro, penso, deleito-me na fruição da consciência de me saber, de ser-me – o que é unânime a todo e qualquer ser pensante; também cultivo, por outro lado, a minha faceta própria e inédita; mas ainda assim, posso arguir que todo e qualquer insólito humano, não é insólito por si próprio, mas pelo contexto, e ainda assim, poderia assumir que um contexto se repete e que somos uma espiral cíclica de retrocesso e retorno existencial – é justo, mas afasta-nos da questão.

 

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O que me distingue então do meu vizinho? Os meus pensamentos? A minha virtude intelectual enquanto homo cogito (homem pensante)? A minha convicção férrea nas minhas ideias e assunções próprias que, imagino (ilusoriamente) me pertencerem unicamente a mim, por decreto?

 

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A resposta que encontrei para esta pergunta é assombrosamente simples e prosaica:

 

Eu serei sempre mais do que os outros. Mas, por devir, os póstumos, serão sempre mais do que fui.

 

Os meus diacríticos, a minha génese e integridade pessoal, enquanto “eu”, nunca me pertencerão por absoluto; caminho em passadas de gigantes idos e petizes passos de crianças vindouras. Eu não vim ao Mundo, como inédito extraviado; eu extorqui ao mundo, eu vim do Mundo e a ele voltarei saldando o meu empréstimo integrado de átomos que me compõem e, um dia estruturarão outrem.

 

A minha anatomia e configuração aparente, têm de facto, o seu quê de único e inigualável. Mas, sub-repticiamente, caminhamos em direcção a um futuro assustadoramente planeável e geneticamente previsível. É uma questão de tempo

 

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até a porta de Mendel ser esfranqueada e, hediondos prodígios e experimentações colonarem a tão inviolável: Anatomia única.

 

Ora, o que nos resta então? – Eu respondo: nós próprios. Como assim: “nós próprios”? – Nada mais elementar – a nossa metafísica, a nossa dimensão invisível e oculta que fica na avenida do Imaginário cruzando com a rua da Fantasia.

Por ora (sabe-se lá até quando), a porta de Freud continua inviolável; descobrimo-la, é um facto, mas esquecemos a terrível verdade: só ele possui a chave.

 

Desviando-me da metáfora e da alegoria; o que pretendo propôr/-me com esta ideia, é o seguinte:

 

O que acredito distinguir-nos da restante prole de insólitos vivos, é a capacidade ingénita e prodigiosa, que cada um de nós possui, de se escapulir de si mesmo, de encenar e actuar como protagonista e plateia das suas cenas em diversas peças. O que somos de facto? – é claro que somos algo físico, dissemelhante de qualquer outro “algo” físico; é claro que pensamos, reagimos e adquirimos e construímos ao longo de uma vida, determinadas idiossincrasias e maneirismos que nos definem enquanto “eu”. Mas, se conseguirmos: não ser “eu”, conseguiremos ser “nós”? a questão que deixo pairante é: ao ser tudo o que prefaciamente não sou, continuarei a ser eu? Creio que a veradeira disjuntura entre o que somos enquanto pressuposto social e aparente; mesmo como assumpção para nós mesmos; seja intelectualmente ou não; é facto de, indulgentemente vivermos num decreto de nos descobrirmos a nós próprios; os diversos eus, as vidas que nunca foram, as memórias que nunca pisaram, efectivamente, um terreno “real” de existência.

 

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Sou a cena viva onde passam vários actores, representando várias peças.

 

                                                       in “Livro do Desassossego”, PESSOA, Fernando, SOARES, Bernardo, Assírio & Alvim,  Lisboa -  2006

 

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Reflexão levada a cabo por Guilherme Gomes, ESAD, 2007

 

publicado por sofisma às 21:42
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