Sábado, 30 de Junho de 2007

Carta [In]Remetente

Não sei como te dizer, avô. Não sei como te dizer que a personagem que encerras, existe em mim, e que o “mim”, é inefavelmente, pretensioso, pois “mim”, “mim” é a multidão onde me ergui, “mim” sou eu, um eu colectivo, um eu uníssono. E mesmo que um hábito, uma prática ou memória presente não decorre directamente do teu legado, ele, por si, inteiro, se faz atribuir autor, à rubrica, ao cunho da tua passagem, que trauteou os meus passos. O meu gosto pelo desconstrutivismo do objecto vida, dos detalhes que a obra da imaginação extasia em fenómenos vivos, em animais de cetim e cornucópias caleidoscópicas de estrume vivente. Não sei como te dizer que me pertences, porque assumi-lo, seria, no rigor impreciso das palavras, esmorecê-lo. A prática da escrita é o pleonasmo redundante de si mesma, pode ser plural, dolorosa, dolente, indómita e torrencial, mas, balbuciante, imperfeita. Não te sei conjugar, pretérito avô. Possa a minha vida, o meu silêncio ensopado de palavras surdas, que te desdigo, ser a mesquita, o mérito e o voto da tua beleza.

 

Não te sei dizer a falta que me farás. Não sei pensar o que não me é apresentado. Sei antever a agonia, mas não sei se suportarei. És tão igual a mim. Ou pelo menos penso que o serás. Enclausuraste os ditos que se estilhaçam nas rochas imberbes da incompreensão, em ti mesmo, como eu. Já desisti de gatinhar no chavão da estranheza, tão pouco é isso mágoa, apenas pensamos demais, ou de menos, com a carne. Apenas idealizamos demais e concretizamos de menos. O mundo é dos empreendedores, dos audazes, não ardilosos comiserados como eu. Que darei eu ao mundo? A minha impotência? Não acho nada errado, tão pouco consigo combater as placas oscilatórias da minha precavidade, em prole dos meus actos. Queria gritar com clavículas e alvéolos, defronte de todo o mundo Helénico: Eu sei-vos! Eu sei-te, mulher dos gestos empertigados, sei que a mecânica da tua indulgência não te tingiu o receio apavorado do teu seio tremeluzente! Abre-te! És de facto assim? Não, um eu sem isto que digo! E de que me adianta sabê-los?

 

Tudo o que eles possam assertar sobre mim, é incolumemente real. Tão mais real por impensado e remexido e pisado e fermentado. Pensam como fruta colhida ou pedra. Mas nunca metamorfoseada. Nunca metafisicada. E porque mostraria eu este texto a alguém? Só quero esperar dele repulsa, náusea e congestão. Nunca brio, mérito ou menção. Mencionem-me como a epígrafe da convalescença e viverei em patologia com o furor da minha existência. Mas eu preciso disso. Dor real. Ousar destrinçar e dilacerar a metafísica. É Nauseabunda, é cocote com véus de cortina carcomida pelos trajes do medíocre. Matem-na! Arreganhem-na!

 

E que sobranceria posso eu ostentar por este feito!? Nenhuma! Damos demasiada simbologia ao que fazemos. Apenas vomitei e por perversão conservei a disposição desse frémito convulso num pedaço consignado de podridão fútil. Este texto vale um pouco menos do que merda. A merda fertilizada. E isto já é roubar louvores ao húmus, a Minerva e à Ecologia. Isto é acético, anestésico, é merda química, é meta-merda!

 

Guilherme Gomes, 10 Junho, 2007

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publicado por sofisma às 17:03
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