Sexta-feira, 7 de Novembro de 2008

Contemporaneidade: Reiteração e Transversalidade

correntes do design contemporâneo | exercício i | guilherme gomes

 

 

 

 

Contemporaneidade: Reiteração e Transversalidade

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“O observador é um príncipe que goza por todo o lado do seu estatuto de incógnito”[1]

 

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“Ainda quantos dardos me resta lançar

 Para acertar no cerne místico do meu alvo?”[2]

 

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“Sob as crisálidas que desabrocham,

 Sob minuciosas fomigações,

 Aprende a ver antes do crepúsculo.”[3]

 

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A concepção de um mundo torrencial, um organismo complexo, passível de ser decomposto, analisado, desmontado e perscrutado até à ínfima parte indivisível, é colateral e redundante às práticas humanas; indiciada na aurora da razão e no alvorecer das correntes primogénitas, radicadas na ciência, a vontade de tudo saber, de categorizar, colectar, adquirir, apreender – em suma, sorver da fonte intérmina que é o Real oferecido – mobilizou as mais diversas expressões, impressas na cronologia dos tempos.

 

Incontáveis são já as dissertações e discorrimentos que versam sobre as fenomenologias da Modernidade, Pós-Modernidade, Contemporaneidade e outros marcadores temporais. Nesse sentido, sobressaem duas operações, diametralmente distantes, a saber: uma abordagem mnemónica, aportada em taxionomias e numa óptica categórica; a disposição do cirurgião, traçando um perfil da fisionomia dos gestos, dos preceitos, da Moda, da Estética, da Morfologia, da Tecnologia, da Literatura, da Cultura, da Arte, da Heráldica, etc; incentivado pela arquitectura estabelecida dos eventos, faltando-lhe a visão estereoscópica, móbil, e por vezes, desapegada do grampo[4] das nomenclaturas; em antagonia, o que na primeira abordagem é módico, curto, na segunda, é sublimado, com preponderância para a congestão[5], para a hipérbole: há uma procura incessante pelas correspondências, pelos anacronismos, um entendimento não historicista, voltado para compreensão do contemporâneo como componente cíclico e múltiplo, transitório, contudo eterno.

 

Esta noção, cimeira na prosa ensaística de Baudelaire, ganha um carácter mais ilustrativo na obra O Pintor da vida moderna[6], quando o poeta disserta sobre “qualquer coisa a que nos permitiremos chamar modernidade, pois não existe melhor palavra para exprimir a ideia em questão”[7], e que, reportando para uma postura que acredito ser unânime e pendular na percepção do que é novo[8], consiste em “extrair o eterno do transitório”[9], servindo-se para isso, o ser desperto para as conjunções, disjunções e concorrências do contemporâneo, de uma disponibilidade sofisticada para ampliar fronteiras.

 

Umas das efígies que ressoa igualmente na mesma obra, é a do flâneur[10], o diletante, o homem-mundo[11]. Esta será uma figura concomitante; não só na apreensão do real, reformulada nos anais do tempo, como na compreensão da escrita convulsa e arreigadamente contemporânea de Michaux, como ainda, na justificação da sequência inicial que inaugura a película Microcosmos [12]– objecto alegórico que me proponho falar.

 

No flâneur, deflagra-se um comércio de sensações, um trânsito frenético e sinestésico de impulsos, que o impelem a comungar-se com a multidão, a criar nela domicílio[13]; o bálsamo do aleatório, da alteridade que desnorteia o rumo do sujeito e faz desembocar na imensidão do deserto dos homens, é uma consagração declaradamente contemporânea (ou Pós-Moderna, Ultra-Moderna, etc); o desvirtuamento do indivíduo, em prol do miasma cosmopolita, remete-nos para considerações díspares, porém, assiduamente, também correlacionais

 

Achamos esta correlação, ou coligação, se atentarmos na sequência de abertura do filme Microcosmos – de Claude Nuridsany e Marie Pérennou – e a poesia panteísta[14], esotérica, e insubordinada de Henri Michaux, que, encontra a sua expressão mais sublime, no ditame: “Coloco uma maçã sobre a mesa à minha frente. Depois meto-me dentro dessa maçã. Que tranquilidade!”[15]:

 

A película inaugura-se com uma travessia – dir-se-ia – apoteótica, à guisa de uma cavalgada apolínea pela vastidão das nuvens do Olimpo; some-se a esta gravura despótica, um acompanhamento musical oriundo de uma dimensão onírica, desempenhado por um coro infantil, melífluo, pedra de toque imediata para o universo Sonho, do devaneio, do imaginário, da fantasia – terreno onde prolifera a escrita de Michaux. Esbatidamente, numa nuance quase imperceptível, (provavelmente apelando à possibilidade interpretativa do espectador) propaga-se um múrmurio de fundo, embalando o movimento descendente da câmera, preconizando a penetração num novo cosmos, numa nova realidade metamorfoseada.

A metamorfose (recordemo-nos do ênfase incomparável, que Kafka conferiu ao metamorfismo, como denúncia periclitante da desumanização e falecimento do sujeito, na sua obra[16], perpetrando porventura as bases do realismo e existencialismo), é por excelência uma transformação que encerra um inventário semiótico de correlações e associações; concentremo-nos nalgumas delas: a mudança de escala, do espectador (do filme Microcosmos) e do sujeito poético, encetam um desejo de separação, de divórcio, alienação e deslocamento, do universo trivial; mais ainda, esse ensejo de subtracção de um real para outro, incorpora em si, a procura de um reencontro.

 

Assim como Michaux, ao cabo de presumíveis périplos, inquietações e desventuras de desdobramento e desfragmentação (quais bonecas russas fatuamente intangíveis), encontra na consagração máxima de um universo impossível (um universo proveniente de uma demiurgia – uma criação), que será o da maçã transposta, o espectador, ante uma renovada percepção, num meio dantesco, fabulizado, que é porém, o anterior mas elevado à potência do insólito, o encontra paralelamente.

 

Esta inserção/reinserção, aparentada com suposições do seio da metafísica, da hermenêutica, ou mesmo do narcotismo, convocam assunções como: sofrimento, panteísmo e a imagética da criança.

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“Não estava apenas decidido a sofrer, mas a respeitar a originalidade do meu sofrimento”[17]

 

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Retornamos ao flâneur; que se define cada vez mais assertivamente, como a representação do que entendo pela praxis do design, interligando, neurologicamente, com os devidos ajustes territoriais, à poesia de Michaux e à fábula do Microcomos;

 

Comecemos pelo sofrimento, ou ao que Baudelaire nomeia de danação[18]; esta compulsão, esta “via para a insubordinação”, que suplica pelos movimentos livres, que se inconformiza e incompatibiliza, acarreta uma inadaptação e um desfasamento próprios do espírito contemplativo da criança; a mesma criança que abandona a sua digna posição de bípede[19] e se coloca de gatas observando as formigações[20]; esta noção ou alusão à capacidade de abraçar algo impalpável e inconcreto, mas paradoxalmente, concreto, como entrar na maçã[21], ouvir os sussurros telúricos ou ingressar no reencontro com o real perdido dos tempos feéricos (note-se a escrita esplêndida de Lewis Carrol[22]), é um endereço claro ao panteísmo – ao deus que habita os detalhes.

 

Em nota concludente, gostaria de convergir numa quadra, a percepção desfragmentada do eu (pessoano) encabeçada pela escrita de Michaux, o carácter lúdico, didáctico e adaptativo afecto ao “ofício” do design – que entendo como um instrumento mediador, o transitário que (activamente) estabelece descodificações e promove a dialéctica entre agentes sociais; que, encontra no volúvel, o elemento eterno e invariável (Baudelaire), e ainda, que se dissolve e imiscui na prosa quotidiana, inundando os olhos de experiências que potencia e reformula (O pinto da vida moderna – Constantin Guy[23]):

 

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“Repara nos teus pés,

Que divertido mundo!

Repleto de pequenas criaturas loucas!”[24]

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Guilherme Gomes, Outubro, 2008

 

 

 

 

Bibliografia

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1984, MAULPOIX, Jean Michel,  Henri Michaux, passager clandestin: passager clandestin, França, Editions Champvallon, p.43

1863, BAUDELAIRE, Charles, O Pintor da Vida Moderna, Lisboa, Nova Veja, 2006

1915, KAFKA, Franz, A Metamorfose, Porto, Público, 2002

1966, DE SENA, Jorge, O Físico Prodigioso, Lisboa, Edições Asa,1995

1979, CALVINO, Ítalo, Se Numa Noite de Inverno Um Viajante, Porto, Colecção Mil Folhas Público,2002

1857, BAUDELAIRE, Charles, As Flores do Mal, Sta. Maria da Feira, Relógio D’ Água, 2003

 

 

Webliografia

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2005, LECLAIR, Bertrand, Séparation, França, http://remue.net/spip.php?article1196

 

 

 

Filmografia

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1996, Microcosmos : Le peuple de l’herbe, Claude Nuridsany e Marie Perennou, imagem, Claude Nuridsany, Marie Perennou, Hughes Ryffel, Thierry Machado, montagem, Marie-Josèphe Yoyotte, Florence Richard, som, Philippe Barbeau, Bernard Leroux, música, Bruno Coulais, podução, JacquesPerrin / Galatée Films, 35 mm, Cor, 1h15, França,

 

 

 

 

 

Anexo 1

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Repara nos teus pés.

Que divertido mundo!

Repleto de pequenas criaturas loucas.

 

Escuta,

Os sussurros agudos,

O zumbido do coral ecoante.

 

Os sons vibram!

Despontam escaravelhos,

agitados,

Caracóis e

Mariposas.

 

Sob as crisálidas que desabrocham,

Sob minuciosas formigações,

Aprende a ver antes do crepúsculo.

 

Sentado na relva,

Observa e pinta:

O sapo, o besouro e a libélula.

 

Sons  estremecem!

Num frenesim,

irrompem,

álacres escaravelhos,

Caracóis e

Mariposas.

 

 

(tradução Guilherme Gomes)

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] 1863, BAUDELAIRE, Charles, O Pintor da Vida Moderna, Lisboa, Nova Veja, 2006, p. 18

 

[2] 1857, BAUDELAIRE, Charles, As Flores do Mal, Sta. Maria da Feira, Relógio D’ Água, 2003, p. 285

 

[3] N.A Adaptação e tradução do Francês, da letra do tema principal de Microcosmos: Le peuple de l’herbe, França, 1997, ver anexo 1

[4] MICHAUX, Henri, Uma Via para a Insubordinação, Lisboa, &etc, 2008

[5] BAUDELAIRE, Charles, O Pintor da Vida Moderna, Lisboa, Nova Veja, 2006, p.16

[6] BAUDELAIRE, Charles, O Pintor da Vida Moderna, Lisboa, Nova Veja, 2006

[7] Ibid, p. 21

[8] Ibid

[9] Ibid, p. 21

[10] N.A Efígie transversal na obra O Pintor da Vida Moderna, Lisboa, Nova Veja, 2006

[11] Ibid

[12] NURIDSANY, Claude, PÉRENNOU, Marie, Microcosmos: Le peuple de l’herbe, França, 1997

 

[13] Referência a Edgar Allen Poe

[14] O panteísmo sensacionista da poesia de Alberto Caeiro

[15] 1938, MICHAUX, Henri, Lointain intérieur, França, Gallimard

[16] KAFKA, Franz, A Metamorfose, Porto, Público, 2002

[17] PROUST, Marcel, Sobre a Leitura, Pontes, 1989

[18] BAUDELAIRE, Charles, O Pintor da Vida Moderna, Lisboa, Nova Veja, 2006, p.17

[19] OSTRIA, Vicent, A Fly is Born, Cahiers du Cinéma, Nº508, Dez.96

[20] N.A Adaptação e tradução do Francês, da letra do tema principal de Microcosmos: Le peuple de l’herbe, França, 1997

 

[21] MICHAUX, Henri, Lointain intérieur, França, Gallimard

[22] N.A A título paradigmático: Alice no País das Maravilhas, célebre conto infantil de foro oculto e potencialmente esotérico.

[23] N.A O pintor velado no livro BAUDELAIRE, Charles, O Pintor da Vida Moderna, Lisboa, Nova Veja, 2006

[24] N.A  Adaptação e tradução do Francês, da letra do tema principal de Microcosmos: Le peuple de l’herbe, França, 1997

publicado por sofisma às 19:06
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