Segunda-feira, 13 de Outubro de 2008

A Morte da Arte

 

 

Não é inédita na estética da esfera criativa, a imagem do objecto artístico como filho do criador. As considerações e correspondências encontram aqui, uma inesgotável fonte semiótica a ser explorada — centremo-nos no entanto, na análise directa da expressão[1] como parto e porvir do desencadeador.

 

O filho, a criança que brota e desabrocha do sujeito, assume diversas representações; sejam elas personificações, edificações ou insígnias caracterizadoras de uma origem, herdam uma genética, de cariz parental, um vestígio mas igualmente uma metamorfose.

 

Esta nova fisionomia, aquilo que a obra de arte contém de novo, de inovador, assombra o artista[2]: é que este — como o progenitor — manifesta tendencialmente alguma resistência no divórcio com o objecto amamentado. Porquê?

 

Porque este encabeça uma missiva, que ele teme que se dissimule na autonomia sofisticada da criança nutrida.

 

Porque deseja proteger — na acepção mais filantropa e romântica — a obra que divagará, diletante, nas imponderáveis águas da aceitação.

 

Ou porque, tão-somente, o objecto, como interlocutor, mediador, como estandarte da cruzada do artista, intrínseca à procura pelo cerne místico[3]: é uma criatura mortal.

 

Aferroamos este engodo à arte: a pretensão de imortalidade.

 

À arte está indigitada a condenação natural da sua Morte: tornar-se o terreno fértil onde prosperará a geração póstuma.

 

*

 

“Há um objecto e esse objecto é descoberto pela arte.”[4]

 

“Há um objecto e esse objecto descobre para nós a arte.”[5]

 

 

 

 

 

 

 


[1] Cunho e feição particular do criador.

[2] Terminologia desposada de qualquer conotação, artista como indivíduo que, partindo de um determinado engenho ou qualidade, exerce uma prática que se poderá consignar ao âmbito artístico.

[3] in BAUDELAIRE, Charles, As Flores do Mal, Sta. Maria da Feira, Relógio D’ Água, 2003, p. 285

[4] in Baudelaire y el artista de la vida moderna, Pamplona-Iruna, Editorial Pamiela, 1991, p. 135

[5]Ibid

 

publicado por sofisma às 22:26
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