Segunda-feira, 17 de Março de 2008

Lost in Translation

Olhou com alguma indulgência e ataraxia os operários que exibiam os seus portes diminutos, na paisagem distante, enquanto cimentavam a copa do novo prédio que havia sido edificado, erradicando assim a ténue réstia de paisagem que aí resistia; o verde pereceu coroando o plúmbeo pardacento.

 

Semicerradamente, na curvatura das escarpas de aço e ferro, no desnivelamento dos edifícios, perscrutava uma fresta aberta, uma fenda onde refugiar o seu espírito volúvel.

 

O aperto sufocante que o seu pescoço exalava interiormente, o arrepio temeroso que lhe alisava o dorso, o medo, o terrível medo de um permanente estado nesta condição ansiosa e inquietante; como ele lhe fazia falta, e, como apenas nestas palavras conseguia exportar um “isto” miserável do enorme sentimento inefável que a submergia.

 

Camuflava-se nos afazeres, na tolerância ou negação ou mero entorpecimento da perda; mas era certamente uma questão de ocasião até voltar a ser acometida pelas mesmas visões turvas.

 

Esperava reticente, impacientemente dócil e cordial, que algo, sobremaneira inebriante, inefável, a arrebatasse, a deslocasse desta apatia afásica e entediante.

 

Aguardava horas fio, o recolher o astro apolíneo, ansiando encontrar nele as galáxias sépia musselina que vira outrora nos olhos dele.

 

Ensaiava discursos na primeira pessoa, devaneios por extenso, esdrúxulas confissões tenras, que debicava paulatinamente ao som melódico de uma harmonia triste.

 

As noites, trajavam o luto que se recusava a vestir, como pudor pela noção, novamente, de perda. Ninguém compreendia o que ela vira nele. O porquê daquela união inesperada. Só ela o podia explicar, fatidicamente e satiricamente: apenas a ela mesma.

 

O que era ele? Bem, Ele, Aquele, o Tal, o Homem, a pose, o gesto, eram-lhe insustentavelmente tudo. Tudo. Depositara nele idoneamente tudo o quanto tinha, arrendando e hipotecando sorrisos, de forma a tê-los em avultada quantia para lhos oferecer ubiquamente. Ele era o receptáculo, o oráculo dos seus sonhos, os moinhos colossais cervantianos contra os quais caminhava nesciamente. Ele, era o princípio e o fim de todas as coisas, o Darwin tamanho dos seus programas genéticos, o Mr.Hyde e Jekyll da sua fleuma imponderável, oh, como ele era…

 

Torceu o rosto, abcissando-o para trás; ali jazia ele, no leito dos seus sonhos inauditos; naquele néscio e angelical estado, encontrou ela previamente e com algum atempo: o nefasto germe da Tragédia.

publicado por sofisma às 23:53
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