Quinta-feira, 17 de Janeiro de 2008

Crisálidas da Cor (breve resumo)


A história “crisálidas da cor” retrata um homem que vive em puro estado solitário, retirado do mundo. Misantropo, eremita, isolado por predescendência de uma desordem genética que não lhe permite restituir o prejuízo danoso das emanações solares. A luz actua nele como elixir venenoso, poluto tóxico.(Xerodemia Pigmentosa)

 

Como paliativo e entretenimento lúdico, dedica-se à aritmética e ao rigor algébrico, prodigalizante escape ao seu espírito insatisfeito e conturbado. Cada dia é por ele regido em absoluta coordenação rítmica, quase autista e esquizofrénico. Devido à contundente contingência fotofóbica, refugia-se dentro do seu pequeno apartamento impermeável à entrada de luz, vedando-o numa envoltura insana e ébria de irrealidade. O único artefacto que o une ao universo exterior é um monóculo filtrador da luz, permitindo-lhe dedicar largas horas na prática do voyeurismo. A habitação em que se instalou, não lhe pertence, transladado directamente de uma antiga biosfera onde sobrevivia nas trevas, encontrou na nova moradia, inúmeros tomos de sabedoria variada. Estudos kantianos e gestaltianos da cor, sabendo dela tudo, sem no entanto a ter visto alguma vez.

 

Calejado pelos vigores simples em que se vigenciava, desconhecia por completo as manifestações ambíguas e diversificadas dos sentimentos dos homens, sendo estes para ele, jocosos andarilhos caricaturais que se passeavam desengonçadamente na alegoria que era o palco diante dos seus olhos surdos. A forma peculiar e repelente como se alimenta merece a resenha:

 

Como sustento aquoso, sorve ocasionalmente pequenas acumulações de água estagnada, ferrosa, escoriada e rica em resíduos de ligas metálicas calcárias, proveniente das rudimentares e desgastadas canalizações do edifício, que lhe valeram molestivamente uma bexiga varicosa e um rim atrofiado, tal a incidência ferrosa e mineral.

 

A quase ausência de luz custara-lhe imensos enevoamentos oculares e interstício na retina. As escassas exposições arrojadas e insensatas que encetou, coroaram-no com medalhões fungosos e repulsivas chagas de carne cauterizada.

 

Como sustento, atrai pombos ao seu covil, utilizando como chamariz, vestígios de lombadas de camurça idosa dos imensos livros, banqueteando-se nos seus cadáveres destrinçados e esquartejados, presos nas teias enrodilhadas nas canalizações ferrosas.

 

Nessas alturas, os comensais ratos, que o obrigam a mil precauções, perdem a pose ameaçadora e partilham do manjar.

 

De quando em quando alimenta-se de excrescências fungosas e vegetais, líquenes supõe ele ter lido algures, que proliferam nos resguardos das janelas.

 

Esta é a vida de Milán Bauman, tendo por nome, aquele que escolheu sorteada e aleatoriamente num dos seus muitos livros.

 

Tudo mudará na vida miserável de Bauman, quando certo dia, trava contacto com uma misteriosa mulher do apartamento em frente.

 

Doravante, seguir-lhe-á ciosamente os preceitos e gestos; tragicamente, apaixona-se por ela. Levando-o ela a insurgir-se contra a sua própria natureza e por ela se sacrifica concretizado.

Um gesto soberano, de magistral e inefável anonimato e sigilo, morrer por ela, sem que esta o venha alguma vez a tomar como existente. Morre por orgulho aproveitando na purga catártica da sua pele carbonizada, a apoteose que sempre aguardou. No profundo silêncio, num nascer do sol montanhoso, já inerte e imóvel, descobre todo o fruto da sua existência, na queda desmazelada de uma folha outonal, arruivada e leve, a primeira lágrima alguma vez por ele vertida, acaricia-lhe a face empolada e viva; nunca se sentira tão existente como até então…amava-a e morreria. Era como se o amor, estampado no rosto exumado, devesse sobreviver-lhe.

publicado por sofisma às 23:10
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