Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2008

Expressividade: Etimologia, Polissemia e Ontologia.



Apraz-me admirar o carácter polissémico, híbrido, ambíguo e sintagmático de um conceito. É semântica e etimologicamente lúdico dissecar um termo, um signo; perceber os intrincados tecidos e camadas da sua trama de sentidos. Ao compreender (sendo que, compreender se torna redundante, pois o processo reside nessa mesma compreensão de um espectro de significados) o qualisigno, sinsigno e multifacetação da teia de significâncias do conceito expressão, estamos já, invariavelmente a veicular essa condição antropóide, a expressividade.
O termo: expressão, deriva do latim “expressione”, este signo contrai-se pela adveniência do termo “exprimo”. Deparamo-nos então com o carrossel de conceitos (que são também eles expressões semânticas), apercebemo-nos do busílis, das subtilezas semânticas que arquitectam a palavra expressividade; exprimir induz a evocação de algo que é expelido, expurgado, remete para a exalação de um interior para um exterior, “de dentro para fora”; este remeter ao exteriorizar de esse dito “algo”, enfatiza-se pela articulação do termo “pressão” (pressing, pressione, pression) que exponencia a ideia de “espirrar” algo.

O que é então: Expressividade?

“Capacidade que todo o existente tem para transmitir os diferentes estímulos, sentimentos, ideias, desejos.... com clareza e de uma maneira criativa.” Rendal

“É a forma como manifestas algo (...) quanto maior vocabulário e competência linguística tiveres, mais facilmente conseguirás expressar-te e terás por sua vez uma maior expressividade (…) como existem críticos, existem danças e certas artes que por si só libertam uma intensa expressividade, neste caso não verbalmente, mas na forma como estão a manifestar.” Nils

“Expressividade para mim passa pelo traquejo e habilidade de conseguir dizer determinadas coisas (…) posso "dosear" a expressividade tendo em conta para aquilo que a quero utilizar, desde convencer alguém como até num simples diálogo.” Telmo

* Frases recolhidas de entrevistas aos autores.

“Expressão é toda a emissão consciente ou não de sinais e mensagens.” Salzer

“Expressar algo tem vários significados na relação com o corpo, com a emoção, com a sensibilidade e com a capacidade de dar e receber.” Brikman

Tentando não me estender, espraiando-me em dissertações vãs, vagas, errantes; embora sabendo-as apartadas à arte, que perscruta e indaga, procurarei sintetizar as diversas reminiscências que recolhi para a elaboração desta análise.
Expressão é sem dúvida a idiossincrasia unânime, a idiossincrasia universal, doutrinal e uníssona. Mas, cingindo-me à arte, sendo ela um promotor da humanidade, poderia abordar, numa primeira instância, a expressão corporal, atendendo a que, todos os filamentos e prolongamentos que ulteriorizam o corpo (trans-somáticos), são tão-somente pontes que o Homem edifica, sem que no entanto não exista nelas o seu legado, o seu consignar. Quero com isto dizer que, o corpo é o objecto do nosso pensamento, como postulou Richard Bach, em “Fernão Capelo Gaivota”; a expressão é incessantemente corporal a meu ver, e, embora não aparte o corpo, em quadros, esculturas ou quaisquer promulgações metafísicas exteriores ao homem, nelas existirá sempre o seu substrato, e a sua sublimidade.
Desde o primeiro vagido de existência, que a criança se entranha no intrincado universo da expressão. O seu desenvolvimento cognitivo abstrai-se do espectro exterior de eventos, para se regozijar ao apreendimento da expressão humana. Progressivamente, o Homem adquire informações disposicionais, tecendo a sua filogenia e ontologia por filamentos sinápticos e neurais; simplificando, o ser humano possui como que uma biblioteca não fac-similar de dados, que não existem como suportes visitáveis na inteireza da sua perícia e substância, mas sim, as disposições cerebrais, criam um esquema da realidade, um esquisso de uma paisagem, que se reformulará e reafirmará constantemente. Poderia afirmar, que somos uma interminável expressão de nós mesmos, pois nunca nos temos inteiramente, somos fronteiriços com a reciclagem de ideologias e visões autodidactas e ulteriores. Talvez por isto, expressar comece na expressão humana, como estudou Darwin em “A expressão das emoções no homem e no animal”; ao familiarizar-se com as convergências de significados emotivos que o rodeiam em articulações faciais e corporais, a criança aprende que, expressar é um forte veículo de sobrevivência e pragma.
Toda a expressão é fiel à sua proveniência e providência: expressar é já de si reafirmar e registar o existente em formatos próprios. Na Arte, assistiu-se e assiste-se a esta divergência de sentidos: O que é considerado exprimir?
Na música, literatura, e novelos artísticos, percebemos que exprimir é atribuir um pouco de si ao que não lhe pertence; no caso da música, é comum assistir-se a reinterpretações de ritmos, sonoridades e compasso de obras, que são induzidas pela apropriação do autor que lega ao músico; termos como “assai”, “com fuocco” e “grazioso” indicam ao músico em que ritmo deve interpretar a obra.
Poderia dissertar indefinidamente sobre o tema, e perder-me-ia na trama de hipóteses e dissertações, mas, creio que, o que apreendi de expressão ou expressividade: é a capacidade de consignar, ou seja, dar significado a um objecto, artístico ou não, sendo ele, um resultado metafísico do pensamento.

Bibliografia:
 “O Erro de Descartes”, Damásio;
“Fernão Capelo Gaivota” Richard Bach
publicado por sofisma às 00:27
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