Quarta-feira, 16 de Janeiro de 2008

Retro-Pro-Intro-Meta-espectiva

Reflexão sem peias

 

Achei por bem, perdoando-me pelo pastiche da citação, referenciar em contornos gerais, uma reflexão de um autor pelo qual nutro uma enorme estima e admiração –  Milan Kundera.

 

Kundera, aludindo à inóspita dissertação do eterno retorno, postulada por Nietzsche, emerge a tangência de dois conceitos, acoplados à perpetuidade das acções, desprovidas de retorno-o peso e a leveza.

 

A Humanidade, tende a dealbar para uma consequente supressão dos maniqueísmos doutrinais e aforismos totalmente antagónicos. Podemos, como indivíduos detentores da fruição experimentada e primogénitos de um pensamento cartesiano, suportado pelos agentes da racionalização, tecer juízos de valor absolutistas, pilares hegemónicos de pensamento, inalbergadores dos “mesos”, das periferias e mestiçagens. Mas, não será imperícia, categorizar maniqueistamente, algo como referente a “peso” ou a “leveza” – “O peso de uns é a leveza de outros”.

 

Aparentemente inócua, esta dissertação de Kundera, empola as estradas ortodoxas de inabaláveis do Antigo pensamento, despoleta e alerta para os itinerários transversais, as mesclagens da metamodernidade, os alhures convergentes da etnografia, as distâncias que gravitam num diâmetro newtoniano, progressivamente mais sulcado de atalhos e ermos, esse epicentro, de seu nome – aldeia global.

 

1 “Despreza as estradas largas, segue os carreiros.”

 

2 “Há dias em que tudo o que vejo me parece pleno de significados: mensagens que me seria difícil comunicar a outros, definir, traduzir por palavras, mas que precisamente por isso se me como decisivas. São anúncios ou presságios que me dizem respeito a mim mesmo e ao mundo ao mesmo tempo: e de mim, não os acontecimentos exteriores da existência mas o que acontece cá dentro, no fundo; e do mundo não um facto singular qualquer mas o modo de ser geral de tudo. Compreendem pois a minha dificuldade em falar disto, a não ser por alusões.”

 

Permito-me a urdir uma imagem metafórica, deste aparelho tecnocrata, idiossincrático/pluralista, sistémico/holístico, que se pauta na acuidade dos detalhes individuais e no mesmo instante, holisticamente, para além dos componentes detalhados, chamado – Humanidade.

 

Ipso facto, laceremos uma brecha na cronologia, e por esta fissura retomemos a este dominó de eventos que nos fez homens:

1 PITÁGORAS

2 CALVINO,Italo

 

 

Entendo por cultura, a consciência da digressão evolutiva a que fomos/somos sujeitos. Tudo principia e finda no caos, na explosão (demográfica, populacional, ideológica, geológica, evolutiva). No caldo criativo, no jugo das angústias heterogéneas da sopa cultural/humana, fomos sorvendo, sugando pelo tubo gástrico da procura, quais mexilhões insatisfeitos, o produto deste fenómeno que concilia idiomas, convicções, obras da imaginação e intermitências – a cultura.

 

O termo insatisfeito, tem muito que se lhe diga, nas palavras de Nietzsche, a “incapacidade da vontade para se satisfazer sem adversário e resistência”, encontra na insatisfação o propulsor da vontade. A mesma vontade apartada nos estandartes das cruzadas, nos bacamartes das caravelas dos Descobrimentos, no concernimento do Determinismo de Descartes, no génio de Einstein, no fascínio dos Irmãos Lumiére e no humor dos Irmãos Marx.

 

Começámos por ser uma esponja circunscrita de insatisfação e loucura (os diacríticos do programa evolutivo), uma esponja que se jugou ao prenúncio da expansão do pensamento e à sua elasticidade. O que nos primórdios, eram fendas estáveis, doutrinais, aforísticas e impenetráveis, consequentemente, com o adelgaçar da esponja, transformou-se em brechas vivas, hiatos sangrentos de contaminação e transfusão cultural. A esponja, paradoxalmente afasta-se, sendo um centro gravítico. Tudo o que nela é suposta distância, telemediatizada, converteu-se em proximidade, intemporalidade e comunicação. Com numa teia de aranha, os filamentos urdidos, interligam-se, concatenam-se, entremeiam-se e repercutem-se numa rede intrincada e inescapável. A esponja estica, diariamente, progressivamente mais permeável e ensopada – de nós.

 

Tropeçamos então, nos estribilho-chavão, na epidemia diacrítica do pensamento: o cartesianismo. Aprendi a perdoar Descartes. 1“O fraco nunca perdoa. O perdão é a característica do forte”.

 

O perdão, paradigmaticamente, advém da compreensão e da contextualização, assim, situando Descartes na índole do seu tempo, compreendo o cartesianismo como –  o melhor possível. Era pungente e urgente uma casta existencialista no canteiro humano. Era emergente despoluir os olhos marejados de obscurantismo pérfido veiculado pelo Testamento e fervor episcopal. Pensemos, contemplaríamos uma “Metamorfose” kafkiana ou um “Albatroz” baudelairiano, não existindo Descartes?

 

 

1 GANDHI

2 DESCARTES,René

 

 

Descartes, num período de Iluminismo esperançoso, procurou provar a existência do mundo real, tendo como ponto de partida inexistenciado de dúvida, as sensações, por isso concluiu: 2“Penso, logo existo”.

 

 

A vida existe nas entrelinhas, no equilíbrio da ponte entre a vertigem e a loucura. Entrelaçavam-se portanto, as duas margens do espartilho, do axioma racionalista, por um lado o arquipélago da Razão, por outro, a ilha derivante sem paradeiro, rizomada em carapaça de tartaruga dos Galápagos, a Emoção.

 

Como dois amantes vitorianos, paira na apatia de cada um destes empecilhos, com a promessa de uma vindoura comunhão inaudita. Um navio não se cinge à popa e proa, e nesta empresa batelada de pensar, brechas se abriram e o navio meteu água por tudo o que era fenda doutrinal e dogmática.

 

É, para mim inconcebível, uma distância entre o corpo e a alma, a emoção e o pensamento racional, o sentimento e o pensamento. Tão pouco um silogismo dedutível me assoma sem o estigma do corpo que presencia, como o inverso. Corpo e Alma, corroboram-se, complementam-se, coligam-se num mesmo fluxo somático-corporal.1 “A Alma respira através do Corpo, e o Sofrimento, quer comece no Corpo ou numa imagem Mental, acontece na Carne”. A Alma e o Corpo transmutam-se, o corpo é interlocutor do pensamento e vice-versa. A metáfora do pensamento é o corpo e a metafísica do corpo é o pensamento; o universo do racional-emotivo é escorregadio, deslizante e oscilatório. Ambos formam a condição humana, indissociavelmente.

 

Encontrando em Morin a resposta, devemos procurar não a disjuntura, a separação entre os dispersos novelos no tear da Humanidade, sejam eles, respeitantes à economia, à tecnologia, à biologia, à cultura, etc, mas a compreensão da diferença que os atrai, como pólos opostos de um imane.

 

Frequentemente me deparo com as facções sociais e comportamentais que me cercam, no rodear dos contornos das etnopaisagens, percebo a parafernália de resquícios culturais, designando-os por -tribalismos. Uma vez mais, ergo a couraça protectora da minha prudência, quando virtuosamente apelidamos de “estilo” ou omissão dele, algum grupo ou movimento. A análise unidimensional e encarcerada no invólucro do paradigma ou da doutrina dogmática, é, a meu ver, uma forma tacanha de pintar a modernidade. Devemos sedimentar a nossa ginástica pensativa, na fuga ao acefalismo, na aceitação da dúvida, da renúncia e reformulação.

 

Achar a realidade, seja ela remetente de Design, da Arte, da política, da literatura ou qualquer outra facção cultural, como uma arquitectura sólida, inebriante e inabalável, é embater com

1DAMÁSIO,António

 

pungência na muralha do laconismo e pobreza de espírito. Supor ainda, que o Acaso, o Erro e o Duvidável, são provas do falhanço e da falência humana, é, à priori, hipotecar a própria sanha do pensamento Humano. “Errare humanum est”, mas antes de mais, Errar é biológico, e, a biologia é abertamente propensa ao acaso, à ambiguidade, à hibridez do gracejo enquanto subtileza natural. Nada do que nos fez homens, prescreveu ou decretou perfeição, apenas nos inculcam o dever de tentar e a possibilidade de falhar –  como deriva e não como fatalidade.

 

Somos periscas de saliva marítima, às quais nos foi dado o poder de o saber, o poder da visão de alçado sobre a nossa condição. A preponderância da abstracção, que, como designers, como demiurgos e criadores de universos, e não como supra sumos evangélicos do alto de um pedestal, temos livre acesso ao pensamento do nosso pensamento, à análise autocrítica da nossa crítica.

 

Debruçando-me agora, no pensamento complexo e criativo, enquanto designer, apercebo-me da beleza da alegoria da música. A música, como o design, vive da centelha peneirada a suor e lágrimas do “ruído” ambiente, edificando uma melodia intencionada e demandada. O Designer, vê a ulterioridade, a alteridade do que se passa no seu universo, apercebe-se, sem entropias toldantes no tocante à doutrinação ou dogmatização da paisagem que vibra na córnea da contemporaneidade. O Designer, exógeno, embroa o núcleo duro das ideias, criando, de dentro para fora, um processo fluxal de edificação. Analogicamente, assim como o ouvido do pianista é mais depurado e agudo, o pensamento/visão do designer é obliterante e oblíquo, transversal à transversalidade disciplinar e ortodoxa.

 

Recordo-me da escalonização hierárquica de Piaget, aquando da estratificação de estágios de aprendizagem e grilhões de evolução - e nesta conduta decantizada e conglomerada, qual faccionização huxleyiana, antevejo e percebo o contraste com a educação contemporânea.

 

A panaceia da metamodernidade, a meu ver, está semeada na aljava efervescente das ideias, das ideias que não procuram o alvo conspícuo da certeza, mas a busca da Dúvida, do detalhe e de idiossincrasia.

 

1“Não deixar escapar as diferenças de pormenor, os factos mesmo quando parecem insignificantes, e sobretudo ordená-los”

 

2“Sou a cena viva onde passam vários actores, representando várias peças”

 

Findando um ano de teorização, apraz-me pensar num designer, mais do que um demiurgo,

observador, antropólogo, como um audaz ardiloso, que manietando conceitos, ideologias e

 

 

1SARTRE,J.Paul

2SOARES,Bernardo

 

“culturismos”, assume o papel de criativo, provido do devir curioso de uma criança e o fascínio constante de um apaixonado.

 

Conclusão

 

Parece-me propício e alegórico, invocar duas imagens metafóricas, que, relaciono com o processo criativo do design do “eu”, a aprendizagem na perspectiva construtivista e intermitência do real. Uma delas, prende-se com a imagem de uma realidade caleidoscópica, um real metamorfoseado, refractado, espelhado e reflectido multiplamente num espectro visível e mestiço. O caleidoscópio, como objecto, converge num canal apropriativo, como o processo do real, miríades pontilhistas de pedaços de realidade e existência. A outra imagem, relata a alteridade, a imprevisibilidade e incalculabilidade do universo das ideias, acontecimentos, certezas, reificações: Vejo a profissão do designer, ou a imputação de designer, não como um trabalho de Sísifo, infindável, trabalhosamente infrutífero, mas sim um rio, transbordante de barquinhos de papel. Nesta proposição filosófica e imagética dissertativa, podemos perceber a derivância do pensamento, como o aparelho impreciso, imperício e imprevisível que, a qualquer corrente ou brisa desviante, pode adquirir novos rumos, novos atalhos e novas exegeses.

  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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publicado por sofisma às 00:20
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